11 de Dezembro de 2009
Hoje visitei algumas empresas de trabalho temporário. O meu dia começou às 9.
Comecei a minha volta, a minha busca de trabalho visitando 2 empresas no Parque das Nações.
Comecei por "visitar" a Kelly Services.
Antes de entrar, divaguei o meu olhar pelas vitrinas onde contabilizei pelo menos 55 ofertas de trabalho, das quais mais de 80% se enquadravam dentro do meu perfil, que por sua vez satisfazia as exigências das ofertas apresentadas.
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| É possível verificar nesta sequência de fotos a "pseudo- inexistência de ofertas de trabalho" existente nas vitrinas desta agência de trabalho temporário de acordo com a prepotência e arbitrariedade das funcionárias... |
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Na maioria das ofertas de trabalho expostas na vitrina (55 no total por mim contabilizado), e comum a todas elas pediam-se o 12ºano (que possuo), o 11º, o 10º e mais escassamente o 9º ano para algumas delas. De entre algumas das outras competências também exigidas para as várias funções, pediam-se conhecimentos de Informática na óptica do utilizador (conhecimentos para os quais possuo certificados obtidos através da frequência de cursos de formação profissional), conhecimentos de língua inglesa (para os quais possuo um certificado emitido pelo British Council de Lisboa) e de língua Espanhola; sendo que apenas uma das ofertas requeria conhecimentos de língua francesa, sobre a qual tenho um menor domínio do que aquele que possuo sobre os outros dois idiomas que mencionei anteriormente.
Pude constatar assim antes de entrar naquela agência , que possuía o perfil necessário para que me pudesse candidatar à grande maioria das ofertas ali expostas.
No entanto, quando ali entrei a resposta que ouvi foi a mesma de sempre, que de momento a agência não dispunha de ofertas. Não porque não as houvessem ou porque não existissem de facto, mas porque num acto de manifesta prepotência e "racismo", posso afiançar; aquelas ofertas não existiriam para mim, para a minha pessoa.
Os códigos do trabalho, penal, bem como a Constituição da República Portuguesa, enfatizam que todos os cidadãos são iguais perante a lei; que ninguém deverá ser discriminado em função da sua origem étnica, côr da pele, condição social, económica ou outra. Além do mais, é interessante notar que a constituição deste país refere que todos os cidadãos têm o direito ao trabalho, o que na práctica não acontece. Sou cidadão de um estado que se diz democrático mas onde não aufiro de quaisquer direitos cívicos, embora, muito Concretamente, quando se trata da minha participação nos actos eleitorais, aquela seja referida como um "dever cívico". Quer portanto parecer que esse será portanto o único exercício de cidadania que me é permitido.
Porque tanto como pude constatar com exemplos como estes o direito à minha cidadania está-me portanto completamente alienado.
No caso concreto da minha visita àquela agência da Multinacional Americana Kelly Services, a funcionária que atende pelo nome de Cristina, dirigiu-se a mim e disse-me logo de imediato que não dispunham de ofertas. Referi-lhe que sempre que ali vou procuram-me despachar dizendo que não há ofertas de trabalho.
Referi-lhe o princípio de igualdade e pedi-lhe o livro de reclamações. Foi chamar a chefe dela que trouxe o livro, e após uma curta conversa em que lhe expus o caso, prometeu-me que faria alguma diligência no sentido de fazer alguma coisa; concedi-lhe o benefício da dúvida ainda que não tenha dali saído convencido. Não assinei o livro de reclamações, embora este seja um direito meu. Numa outra agência de emprego, a Atlânco também me trataram de igual modo. Disseram-me de imediato, entre sorrisos que não tinham ofertas de trabalho.....Na realidade o que notei foi que também me puseram em causa, pois supõem eles que eu não deva/devesse possuir as habilitações necessárias, quando saí uma funcionária disse para outra: -Diz que tem o 12ºano!Percebe-se perfeitamente o tipo de atitude racista e narcisística de muitos funcionários deste tipo de agências, defensores de uma política de Apartheid, em que os candidatos são aceites ou preteridos não em função das suas competências mas em função da sua aparência física ou da sua origem étnica. Isto não acontece em todas, mas em grande parte dos casos acontece.
Não deixa é claro, efectivamente de ser estranho que estando pelo menos 55 ofertas de trabalho expostas numa vitrine, e aquele número é inferior ao número total de ofertas expostas, pois não contei as que estavam do lado Este, me digam que nãohavia qualquer tipo de ofertas de trabalho.
- Ainda a propósito da minha visita a algumas empresas de trabalho temporário no dia de hoje, refiro que após ter saído da kelly Services do Parque das Nações, fui à Ponto Emprego ali ao lado. A pessoa que me atendeu foi cordial comigo; pesquisou a minha ficha na base de dados da empresa, e tomou o cuidado de verificar se havia ou não ofertas de trabalho que se enquadrassem no meu perfil e nas actividades para as quais me havia inscrito. As poucas ofertas que encontrou eram geograficamente inacessíveis para mim, pois referiam-se a sítios distantes como Coimbra.
Mas é possível notar aqui, uma grande diferença entre uma pessoa entrar numa agência de trabalho temporário onde arbitrariamente (mas de forma intencional) nos dizem simplesmente que não há ofertas, sem sequer se procurar atender ao perfil do candidato, simplesmente fazendo juízos de valor baseados na cor da pele, nos traços fisionómicos, na aparência pessoal e em coisas que nada têm a ver com o perfil exigido para uma oferta de trabalho.
- Fala-se nas elevadas taxas de abandono escolar. O Governo Português, procura criar alternativas e programas com vista a combater o insucesso escolar e implementar programas com vista a qualificar os adultos, tais como acontece com as novas oportunidades, uma iniciativa quanto a mim louvável...No entanto o que constato na pratica é que as pessoas estudam e depois não têm qualquer perspectiva de integração no meio laboral.
Estudei...concluí o 12ºano, 12ºano que é posto em causa e que é suposto segundo a mentalidade vigente que eu não o tenha, que eu não o possua. Não porque realmente não possua, mas antes porque é conveniente que não possua, pois a sociedade divisionista e orientada para um governo de maioria decidiu excluir uma parte da sua população, aquela que possui uma pele mais escura, mercê da miscenização e dos 500 anos da "herança cultural" Portuguesa, de que o governo português tanto se gaba.
É pena que não se fale das leis ao estilo "Jimmy Crow Laws" (*), que o governo português implementava nas antigas colónias e que deixava e excluía as populações daqueles territórios da vida social e dos postos administrativos; é pena que não se fale do facto de que nas antigas ex-colónias se segregavam negros e mestiços, sendo os segundos "Não pessoas". É de notar que ainda hoje , e já em pleno século XXI as coisas parecem não ter mudado. A própria África do Sul, que durante décadas manteve um regime de segregação racial condenado por todo os governos, inclusive por este cedeu ante os ventos de mudança.
Mas Portugal continua a manter um regime de Apartheid ainda mais insidioso, um regime de Apartheid silencioso, cobarde...Portugal continua ao que parece importado a praticar uma política de ghetização, de exclusão social.
Lembro-me de há alguns anos atrás, ter visto na televisão um spot publicitário, em que um homem caminhava na rua com um cão, preso por uma trela e à medida que ia caminhando ia evitando sucessivamente vários emigrantes que se acercavam do cão para lhe fazer festas. A dado momento, no fim daquele spot o dito homem toca à campainha de uma casa onde lhe atende uma senhora também branca que deixa entrar o cão, barra-lhe a porta e lhe diz que não é permitida a entrada a cães como ele. Não deixa de ser curioso que em Portugal passem spots publicitários como este numa tentativa de "instruir" e alertar no fundo para as boas praticas sociais da tolerância inter-étnica. No entanto vejo que na minha vida não é assim. Sou tratado como uma não - pessoa, grosseiramente caluniado e discriminado como candidato no acesso ao emprego e ao trabalho. 55 ofertas de trabalho expostas, mas não há ofertas de trabalho para a minha pessoa...Porquê?! porque se supõe que eu por ser de outra origem étnica, por ter um defeito de ortodoncia seja menos capaz, menos formado, ou não possua qualquer tipo de formação, porque no imaginário retrógrado deste tipo de pessoas deveria portanto ser alguma figura amorfa; e portanto o bode expiatório de tudo aquilo que vai mal nesta sociedade, numa atitude de "agora temos um a quem culpar" quando a sociedade portuguesa é uma que vai fazendo vista grossa aqueles que são de facto criminosos. Assim é, pois apesar da atitude lombrosiana, da teoria do atavismo físico que deveria caracterizar os criminosos, perfeitamente arraigada na mentalidade portuguesa, verificam-se ainda com bastante espanto de todos, grandes excepções à regra, algumas dessas excepções materializadas até em figuras pouco suspeitas e pilares de algumas sociedades.
Casos como o verificado nas últimas eleições autárquicas em que um Presidente de Junta de Freguesia matou um rival político; casos como o de um Cabo da G.N.R. reformado e condecorado, que se veio a revelar um assassino em série e psicopata, ou casos recentes de figuras amplamente respeitadas pelo público, e envolvidas numa rede sórdida de exploração e prostituição de menores cuja a educação estava ao cargo de uma instituição pública centenária e que tinha por missão protegê-los e deles formar cidadãos úteis e prestáveis . Será a sociedade portuguesa vesga? Bom se não o é , segundo o seu pensar como poderia esta ter simplesmente deixado passar factos como este? Não estava, simplesmente patente no rosto daqueles patifes o que eles eram realmente?
Casos como aqueles que reporto como o ocorrido hoje, e outros que terei de reportar, infelizmente, têm sido o dia-a-dia amargo de alguém que quer trabalhar...e procura ser uma pessoa válida, numa sociedade que a mercê de criar bodes expiatórios procura de forma covarde, encontrar soluções para aquilo que é incapaz de resolver ou que não quer resolver (ex: criminalidade, desemprego, etc..) o que é mais grave.
(*) Jimmy Crow Laws - Sistema de leis que vigorou no sul dos Estados Unidos,
que restringiam os direitos civicos dos afro-americanos, dos índios, e dos
Judeus por exemplo...