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Gugunhana cativo: O rei de Gaza chegava assim a Lisboa, há 112 anos


Foi precisamente neste dia há 112 anos atrás, no dia 15 de Março de 1898 que a cidade de Lisboa viu chegar , cativo e exilado Gugunhana, o último rei do Império de Gaza e o último monarca da dinastia Jamine.
Ngungunhane, Mdungazwe Ngungunyane, Nxumalo, N'gungunhana, Gungunhana ou Reinaldo Frederico Gungunhana (como mais tarde veio a ser conhecido) nasceu em Gaza (na actual provícia de Gaza) em Moçambique, algures entre os rios Zambeze e Incomati no ano de 1850, tendo vindo a falecer muito posteriormente no exílio em Angra do Heroísmo, nos Açores no dia 23 de Dezembro de 1906.
Ngugunhane que foi apelidado pelos portugueses "Leão de Gaza" reinou de 1884 a 1898 sobre o Império de Gaza, fundado pelo seu avô Soshangane (também conhecido por Manicusse), que se situava no sul de Moçambique e abrangeu na altura do seu apogeu toda a área costeira entre os rios Zambeze e Maputo e tinha a sua capital em Manjacaze, na actual província moçambicana de Gaza.
Era filho de Muzila, ou Mzila, que seria depois rei de Gaza de 1861 a 1884, e da raínha Yosio, cujo nome, após a sua morte, foi substituído por Umpibekeçana.
 O pai  de Gugunhana, Muzila era filho e sucessor de Manicusse que, à frente de um exército vindo da Zululândia (actual província sul-africana do Kwa Zulu Natal-que em Zulu quer dizer terra dos zulus), tinha fundou o Império de Gaza.
Os primeiros anos
De acordo com dados da Wikipédia da qual transcrevo do artigo sobre Gugunhana (excelente do ponto de vista pedagógico e absolutamente recomendável a todos os que queiram conhecer a realidade histórica daquele periodo) para que se compreenda o contexto histórico em que a vida de Gugunhana se insere:
"Mundagaz nasceu numa sociedade complexa e num período de grande instabilidade social e política.
A fundação do Império de Gaza
O seu avô, Soshangane ou Manicusse, era o rei (ou nkosi) de um povo de língua nguni, depois denominado pelos portugueses como angune ou vátua, líder incontestado de um poderoso exército que ao longo das década anteriores, na sequência do desencadear do Mfecane, migrara para o Norte a partir da Zululândia, submetendo ao longo da década de 1820 cerca de duas centenas de tribos, cujos chefes passaram a ser seus régulos vassalos.
Após terem partido das suas terras ancestrais no território da actual África do Sul, os guerreiros angunes liderados por Soshangane moveram-se incessantemente pelos territórios sitos entre os rios Maputo e Zambeze, esmagando os povos autóctones e no processo fundando um império a que deram o nome de Gaza, que na fase inicial ocupava cerca de 56 000 km².
Com esta chegada dos angunes, o relativo sossego em que tinham vivido os povos locais, e os comerciantes portugueses estabelecidos ao longo da costa moçambicana, foi rudemente quebrado com sucessivos massacres e a submissão forçada a um novo poder, criando-se um clima de insegurança e medo que permaneceria durante décadas.
Após um deambular de quase vinte anos, o centro do poder angune estabeleceu-se em torno do vale do rio Limpopo, região onde Soshangane, agora com o seu nome mudado para Manicusse, fundou a aldeia de Chaimite e aí fixou a sua capital.
Sendo uma das presenças europeias mais antigas naqueles territórios, Portugal resolveu enviar em Agosto de 1840 uma embaixada à corte de Manicusse.
A delegação era chefiada pelo alferes Caetano dos Santos Pinto e tinha instruções para estabelecer um tratado de amizade, entregando uma espada e uma banda ao rei em troca de uma zagaia e de uma rodela (escudo).
A embaixada foi recebida, mas Manicusse declarou que, no momento, ignorava a vantagem que lhe poderia advir de um tratado de amizade com o rei de Portugal, conforme consta do relatório, datado de 18 de Novembro de 1840, que foi apresentado pelo alferes Caetano dos Santos Pinto e registado pelo escrivão da Fazenda Nacional em Inhambane João Caetano Dias. Mesmo assim, a espada foi trocada pela zagaia, mas os ataques continuaram.
Nascimento de Gugunhana
Foi pois nesta região, e neste enquadramento social e político, que cerca de 1850 nasceu Mundagaz, o futuro Gungunhana, um príncipe de sangue real, filho de
Muzila, um dos putativos herdeiros de Manicusse.
Educado para a vida de guerreiro, desde tenra idade participante nas grandes caminhadas que o seu pai e o su avô empreendiam anualmente através dos seus vastos domínios, Ngunguhane foi formada para a luta, aprendendo as tácticas de guerra que seu avô, a par de Tchaca, tinham sido os introdutores.
Guerra entre Muzila (pai de Gugunhana) e o seu irmão Mawewe
Quando Manicusse, o seu avô, morreu, em 1858, a disputa pelo trono travou-se entre dois os pretendentes  principais: Muzila, o pai de Mundagaz, e Mawewe, seu tio. Após uma breve contenda armada, saiu vitorioso Mawewe, que decidiu, em 1859, atacar os seus irmãos para ganhar mais poder.
 Apenas Muzila conseguiu fugir para o Transvaal, onde organizou um exército para atacar o irmão. Provavelmente Mundagaz terá seguido o seu pai para o exílio, escapando à tentativa de destruição da sua linhagem que se seguiu.
Com Mawewe, ou Maueva, como era designado pela administração colonial portuguesa, a revelar-se ainda mais agressivo que seu pai e predecessor, os portugueses, os bóeres e muitos dos líderes tribais que se sentiam ameaçados pela dominação angune uniram-se contra ele.
Sentindo também a ameaça, o presidente da República Bóer do Orange oficiou a 29 de Abril de 1861 ao vice-cônsul de Portugal propondo uma aliança formal contra Mawewe, a qual foi aceite com relutância. Entretanto, estas reticências desaparecem quando Mawewe exigiu que a colónia de Lourenço Marques lhe passasse a pagar tributo sob a forma de calçado, incluindo mesmo uma cláusula que impunha que as mulheres grávidas pagassem um duplo tributo. E tudo isto sob a ameaça de, em caso de recusa, mover uma guerra de extermínio contra os interesses portugueses na região.
 Onofre Lourenço de Paiva de Andrade, então governador da praça de Lourenço Marques, respondeu enviando um cartucho e dizendo que aquela seria a forma de pagamento do tributo.
Estava declarada a guerra e, a 2 de Novembro de 1861, chegaram a Lourenço Marques enviados de Muzila, que aceitam o apoio português na contenda a troco de vassalagem. A partir daí, Muzila assumiu-se como rei e a guerra ganhou ímpeto.
A batalha decisiva travou-se em finais de Novembro de 1861, numa linha de quase quatro léguas entre as praias da Matola e as terras de Moamba.
Apesar de ter menos homens, Muzila saiu vencedor e a 30 de Novembro apresentou-se no presídio de Lourenço Marques, sendo amigavelmente recebido pelo governador.
A 1 de Dezembro de 1861 foi celebrado um tratado em que Muzila se declarava
súbdito português e feita uma acta, que depois de aprovada pelo governo português, seria publicada por portaria de 18 de Fevereiro de 1863 de José da Silva Mendes Leal, então Ministro da Marinha e Ultramar, e incluída no n.º 4 da publicação Termos de Vassalagem (1858-1889).
Uma nova e decisiva vitória de Muzila numa batalha travada a 16 de Dezembro de 1861, na região do Maputo, consolidou a aliança.
 No processo Portugal forneceu a Muzila 2 000 espingardas, 50 000 cartuchos e 1 200 pederneiras, além do apoio bóer e de intermediação com os líderes locais, que preferiam submeter-se à suserania distante do rei de Portugal do que hegemonia local de Mawewe.
Apesar da guerra ter durado até 1864 e, entretanto, a capital do reino ter mudado do vale do rio Limpopo para Mossurize, a norte do rio Save, na actual província moçambicana de Manica, Muzila foi dominando progressivamente os angune e os povos seus vassalos e a partir de 1864 foi o líder incontestado do Império de Gaza. Com isso, Mundagaz passou a ser um dos príncipes seus potenciais sucessores, iniciando um percurso que o levaria ao poder.
O reinado de Muzila (1864-1884)
Terminada a guerra, Muzila dedicou-se à consolidação do seu poder e à expansão do Império de Gaza.
Manteve o estilo de governação do seu pai, governando com mão de ferro e mantendo a sua corte em constantes caminhadas, percorrendo incessantemente o território que dominava.
A capital continuou em Mossurize, tendo a povoação de Chaimite passado a ser considerada a aldeia sagrada da linhagem e sítio de residência dos espíritos ancestrais.
Apesar do tratado assinado em 1861 e da efectiva aliança com os interesses portugueses que lhe permitira conquistar o trono, os guerreiros de Muzila devastaram por diversas vezes as colónias portuguesas instaladas em Sofala e Inhambane, mantendo-se um clima de tensão que em nada condizia com o formalmente acordado nem com as constantes manifestações de amizade.
Era crescente a pressão europeia sobre a região: portugueses, ingleses e bóeres digladiavam-se pelo controlo de cada vez mais território.
Neste período aumentou rapidamente o número de expedições europeias para exploração da África.
Eram também cada vez mais os missionários e os comerciantes europeus nas terras de Gaza.
Em Lisboa já se começava a alimentar o sonho do controlo dos territórios de Angola à contra-costa, que culminaria no mapa cor-de-rosa alguns anos depois.
Neste ambiente de crescente pressão europeia, a posição de Muzila era cautelosa, traduzindo-se num distanciamento em relação aos europeus.
Mantinha-se nominalmente como vassalo português, mas esquecia com frequência os termos do acordo de 1861: fazia a guerra quando entendia e não se coibia de atacar os interesses portugueses sempre que tal se lhe mostrava favorável e, apesar dos seus protestos de amizade e gratidão, os seus guerreiros por diversas vezes devastaram os distritos de Sofala e Inhambane, penetrando em territórios que eram reclamados como estando sob soberania portuguesa ou pertencentes a régulos que se reclamavam súbditos do rei de Portugal.
No início da década de 1880, quando o reinado de Muzila se aproximava do fim, a pressão europeia cresceu rapidamente. As expedições eram cada vez mais frequentes e penetravam cada vez mais profundamente no território de Gaza.
As pressões para que fosse autorizada a exploração de recursos minerais também cresciam.
 Mantendo uma política de equilíbrio estratégico com os interesses portugueses, a 27 de Janeiro de 1882 Muzila, acompanhado por duas mangas das suas tropas, visitou Lourenço Marques, prestando vassalagem e justificando os conflitos registados em Inhambane.
Foi recebido com todas as honras pelo governador, que lhe ofereceu bois, arroz e aguardente.
Pouco depois, em meados daquele ano, pediu mesmo uma bandeira portuguesa para hastear no seu acampamento.
No ano seguinte, em 1883, Portugal decidiu nomear um embaixador junto da corte de Muzila.
A escolha recaiu sobre António Maria Cardoso, um homem experiente na região, que se dirigiu de imediato para o local onde Muzila se encontrava, na região de Bulawayo, no actual território do Zimbabwe.
Depois de uma longa espera para obter autorização para se aproximar do acampamento e para ser recebido em audiência, António Maria Cardoso conseguiu finalmente chegar à fala com Muzila e foi bem recebido.
O mesmo aconteceu com o capitão de artilharia Joaquim Carlos Paiva de Andrada, que naquele ano se dirigiu a Manica e aí encontrou Muzila.
Contudo, apesar deste aparente bom relacionamento, as tensões subiam rapidamente, com as potências europeias a exigir um efectivo domínio do território como única forma de justificar a posse de territórios em África.
Por esta altura, face ao crescente envolvimento de outras potências europeias em Africa, Portugal decide reforçar a sua presença naquele continente: foram organizadas as grandes expedições de exploração, com destaque para as de Roberto Ivens e Hermenegildo Capelo, com as quais pretendia demonstrar a efectiva ocupação do interior de África.
Sem que Muzila o soubesse, no último ano da sua vida, a milhares de quilómetros das suas terras preparava-se a Conferência de Berlim e, com ela, a partilha do continente africano entre as potências europeias.
Quando faleceu, em finais de Agosto de 1884, os europeus já estavam reunidos para fixar as regras que ditariam o futuro de Gaza.
Durante o reinado de Muzila, o seu filho Mundagaz, o futuro Gungunhana, foi progressivamente ganhando importância, convertendo-se numa das principais figuras da sua corte.
Ascensão ao trono de Mundagaz (Gugunhana)
Quando o pai morreu, não sendo o herdeiro legítimo, posição que recaía sobre o seu meio-irmão Mafemane, cuja a mãe era a esposa principal (nkosicaze) de Muzila, geraram-se algumas escaramuças fratricidas, tradição dos angunes, findas as quais Mundagaz tinha eliminado o príncipe herdeiro e obrigado os outros dois rivais, Anhana e Mafabaze, a fugir para o exílio.
Foi assim que em finais de 1884, em Mossurize, Mundagaz ascendeu ao trono nguni, passando a designar-se por Ngungunhane, Gungunyane ou Gungunhana, o filho de Muzila e o leão de Gaza.
O Reinado de Gugunhana
Governando um território com cerca de 90 000 km² e com mais de milhão e meio de habitantes, Ngungunhane fixou a sua corte em Manjacaze, desde 1884 tornada capital de Gaza.
Com cerca de 34 anos, o jovem rei iniciou a sua governação num momento crítico para a África, coincidente com a realização da Conferência de Berlim (15 de Novembro de 1884 — 26 de Novembro de 1885), não admirando pois que o relacionamento com os europeus, em especial com os portugueses, constasse das sua prioridades governativas.
Foi assim que logo em Janeiro de 1885 contacta as autoridades portuguesas em Chiloane, enviando um presente e anunciado a sucessão.
 Tal foi visto como uma oportunidade de reforçar a presença portuguesa juntos dos angunes, ou vátuas, como então eram designados.
Entretanto, o território de Moçambique é então cobiçado pela Grã-Bretanha e pela Alemanha, mas o governo português age com rapidez, face à muito provável perda do território.
 Logo em 1886, o Ministro dos Estrangeiros, Henrique de Barros Gomes, assina com o chanceler alemão Otto von Bismarck o tratado da delimitação das colónias dos dois países a que, em 1887, é anexado o mapa cor-de-rosa onde Angola e Moçambique estão unidos com esta cor.
Todo este território é acordado passar para a soberania portuguesa, nele se incluindo o Império de Gaza.
Neste contexto e face à crescente presença britânica e bóer no território, em particular a passagem pela região do general britânico Charles Warren com 5 000 homens armados, o governo português decide, finalmente, aproveitar a boa vontade do novo régulo e nomear um residente português junto da corte de Ngungunhane, um misto de oficial de ligação, embaixador e conselheiro político.
A escolha recaiu sobre José Casaleiro de Alegria Rodrigues, mais conhecido por Casaleiro Alegria, um aventureiro com larga experiência na região, onde já fora militar, comerciante e funcionário público.
A escolha foi controversa e gerou invejas e descontentamentos que teriam larga influência nos acontecimentos subsequentes.
Nomeado pelo governador Agostinho Coelho em meados de 1885, Casaleiro Alegria foi muito bem recebido na corte de Ngungunhane, ganhando rapidamente a confiança
dos principais líderes políticos, incluindo a do próprio monarca.
Surge então a ideia de assinar novo tratado que substituísse o de 1861, que se encontrava manifestamente desactualizado e esquecido.
Envio da embaixada de Gugunhana a Lisboa
Para tal foi decidido enviar uma embaixada a Lisboa, tendo Ngungunhane resolvido delegar em Casaleiro Alegria os poderes para o representar perante Portugal.
Face aos tabus que não permitiam à aristocracia angune atravessar o mar, a embaixada foi composta por Matanda-Encoce, de cerca de 60 anos, e por Mapinda, na casa dos 40 anos.
Ambos eram nobres oriundos de outras etnias. A embaixada partiu em meados de 1885, chegando a Lisboa em meados de Setembro.
 Foram recebidos pelo rei D. Luís I de Portugal a 18 de Setembro.
A ausência de angunes e a presença de Casaleiro Alegria levantou grandes suspeitas e intrigas, sendo a embaixada considerada por muitos como uma impostura.
 Mesmo assim, a embaixada é recebida pelo Ministro da Marinha e Ultramar a 12 de Outubro, sendo nesse dia assinado um tratado de amizade e vassalagem entre os reis de Portugal e de Gaza, o qual foi publicado no Boletim Oficial da Província de Moçambique de 9 de Janeiro de 1886.
 O tratado oficializava a presença do residente português e permitia a livre circulação de portugueses em Gaza, ao mesmo tempo que concedia a Ngungunhane as honras de coronel de segunda linha do exército português, incluindo o direito à respectiva farda.
As desconfianças levantadas quanto à autenticidade dos poderes de Casaleiro Alegria levariam a uma sindicância, que os confirmaria, mas que teria como consequência perder-se muito do impacte que se pretendia.
Também as dificuldades de aplicação do tratado, pela parte portuguesa e por Ngungunhane, levaram a que surgisse uma nova versão, menos ambiciosa nos propósitos, o que contribuiu para um maior descrédito de todo o processo.
Envio de uma segunda embaixada Nguni a Lisboa
Perdida esta primeira oportunidade, nova embaixada é preparada em 1887, sendo desta vez enviados dois nobres angunes, N’Tonga, da casa de Manjacaze, e Udaca, da casa de Udengo.
Desta vez as coisas correm bem, e os emissários são recebidos pelo rei e rainha de Portugal e é-lhes dado fazer um percurso onde visitam arsenais e quartéis, com o fito de os convencer do poder português.
 Até se inclui na visita uma ida ao circo, onde um branco (por acaso americano…) doma leões, considerada proeza de incrível magia aos olhos dos enviados.
A visita a Lisboa, e as notícias da anexação da Zululândia à colónia do Natal a 14 de Maio de 1887, levam a um período de franca melhoria no relacionamento com os portugueses, o qual seria contudo de pouca dura: com os resultados da Conferência de Berlim já a sentir-se, a posição portuguesa começa a endurecer, ganhando contornos crescentemente imperialistas.
Face às crescentes exigências e ao cada vez maior número de estrangeiros nas suas terras, Ngungunhane sente-se ameaçado, num balanço precário entre as diversas forças em presença, nomeadamente a portuguesa e a britânica, e a constante ameaça de dissenção interna face à existência de pretendentes ao trono no exílio.
Por esta altura Ngungunhana decide mudar a sua capital de Mossurize para Cambane, aí criando uma nova Manjacaze (Mandlaksi), cerca de 600 km a sul, num movimento que desencadearia novas resistências e propiciaria novas guerras, já que o local escolhido se situava muito próximo de territórios controlados por povos considerados inimigos.
A razão da mudança prende-se com a tentativa de melhor aproveitar as rivalidades das potências europeias e defender a independência em relação aos portugueses, aliviando as suas pretensões sobre as minas de Manica e consolidando a soberania nguni. Por essa altura Ngungunhane tenta o apoio dos ingleses e de Cecil Rhodes.
Esta situação leva a uma complexa teia de compromissos, regularmente quebrados e reassumidos, em que aos ataques aos interesses portugueses se seguem as desculpas e os protestos de amizade.
As embaixadas sucediam-se, mas os conflitos não paravam, com ataques constantes contra povos que se tinham colocado sob a protecção portuguesa.
O ùltimato britânico
Um momento de viragem nesta relação surge em consequência do ultimato britânico de 11 de Janeiro de 1890, o qual impõe a retirada imediata das forças portuguesas na região do Chire (Niassalândia) e das terras dos Mocololos e dos Machonas (actual Zimbabwe).
Em caso de desobediência, o governo britânico ameaça Lisboa com bloqueio naval e acção armada.
 O rei D. Carlos I de Portugal apressa-se a comunicar a Londres, no próprio dia do Ultimato, que ele e o governo português cedem às exigências.
Mas face à onda patriótica e nacionalista de repúdio que se desencadeou, a administração colonial portuguesa muda de posição: deixa de se falar em acordos e em cooperação para se falar em submissão e plena vassalagem, a chamada pacificação, mesmo que tal implicasse a intervenção armada e o derrube dos régulos menos cooperantes.
Esta linguagem ganha nova acutilância com a chegada em 1891 de Joaquim Mouzinho de Albuquerque, um oficial do exército monárquico e nacionalista, ao posto de governador de Lourenço Marques.
Nos dois anos em que permaneceu no cargo (1891-1892) deu-se um rápido endurecimento nas relações com os povos africanos circundantes, desaparecendo a tendência para a contemporização que tinha caracterizado a presença portuguesa nas décadas anteriores.
Entretanto, os britânicos, e particularmente o todo poderoso Cecil Rhodes, da British South Africa Company, elegem a região de Gaza e o porto de Lourenço Marques como objectivos estratégicos para o escoamento das matérias-primas do Transvaal. Paralelamente surgem os interesses das três grandes concessionárias que usufruem do poder quase absoluto nos imensos territórios que exploram, a Companhia do Niassa, a Companhia da Zambézia e a Companhia de Moçambique, isto num período em que nas palavras do insuspeito Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque a ocupação na província de Moçambique resumia-se de facto a uma estreita faixa do litoral, à excepção de alguns pontos isolados do interior.
Portugueses, ingleses, colonos sul-africanos e representantes das companhias concessionárias procuram atrair de diversas formas Ngungunhane para os seus interesses.
O governo português instala um intendente-geral na corte, lugar previsto no tratado de Outubro de 1885.
Cecil Rhodes obtém de Ngungunhane, a troco de um milhar de espingardas, munições e de um subsídio anual em dinheiro, a concessão de exploração de minérios e o acesso ao mar.
Negungunhane recebe uma taça em prata, oferta da rainha Vitória do Reino Unido.
Ngungunhane é surpreendido pela rapidez dos acontecimentos e pela radical alteração do comportamento português.
 Decide então, mais uma vez, jogar no conflito entre Londres e Lisboa, mas fica sem resposta o seu pedido de protecção à rainha Vitória do Reino Unido.
 Sem que ele o soubesse, os governos português e britânico tinham chegado a acordo na delimitação dos territórios africanos, rubricando em Junho de 1891 um entendimento onde Gaza fica, sem margem para dúvidas, no interior do território de Moçambique.
O imperador é intimado assumir-se como súbdito de Portugal, deixando de poder esperar apoio britânico.
Rebelião Ronga
Apesar de Mouzinho de Albuquerque já ter deixado o governo de Lourenço Marques e
regressado a Portugal, os aumentos de impostos por ele determinados e a violência com que tinha tratado as populações africanas dos chamados prazos da Coroa na região circundante a Lourenço Marques deixaram um legado de descontentamento e revolta que não parava de crescer.
Em finais de 1893 começaram a surgir sinais de insurreição eminente, os quais se foram agravando ao longo de 1894 com o surgimento de múltiplos incidentes e ataques a interesses portugueses em locais isolados.
Embora na região circundante de Lourenço Marques houvesse um grande número de chefes tribais que mantinham relações de paz com os portugueses, como os de Maota, Machaquene, Matola ou Maputo, e se consideravam vassalos da coroa portuguesa, pagando o mussoco ou imposto de palhota, permitindo a livre circulação de tropas nos seus territórios e fornecendo homens para as tropas auxiliares portuguesas, coexistiam outros chefes de tribo que se não submetiam aos portugueses e que obedeciam a Ngungunhane, de quem se consideravam vassalos.
Eram, por exemplo, os povos de Manhica, Magaia, Zixaxa ou Moamba.
Foi nesse contexto complexo de povos e lealdades, mas com um fundo comum de
revolta resultante da intolerância e injustiça de que se sentiam vítimas, que a revolta se iniciou, despoletada por um conflito que surgiu na tribo Magaia entre  chefe Mahazul e um outro pretendente o lugar de nome Maveja. Mahazul era vassalo fiel de Ngungunhane e não aceitava a soberania portuguesa.
 Os portugueses conseguiram convencer Maveja a reconhecer a soberania portuguesa em troca de auxílio contra Mahazul.
Sabendo do apoio português ao seu rival, Mahazul alia-se a Matibejana Nwamatibyane), chefe da tribo Zixaxa (Zihlahla), e ambos resolvem atacar Lourenço Marques, aproveitando o descontentamento que lavrava entre as tribos fiéis aos portugueses.
Em Agosto de 1894, os rongas da região de Lourenço Marques, liderados pelos régulos Mahazul, Nwamatibyane e Amgundjuana reúnem milhares de guerreiros e cercam durante mais de dois meses Lourenço Marques, preparando o assalto à cidade.
O Governador-Geral, brigadeiro Fernão de Magalhães e Meneses, chega da ilha de Moçambique, então a capital da colónia, ordena o levantamento de trincheiras e arma canhões.
Dispensa a oferta de Cecil Rhodes para servir de medianeiro, preferindo preparar-se para o inevitável confronto.
Depois deste longo cerco, a 14 de Outubro de 1894, as mangas de Matibejana, Mahazul e do chefe Angundjuane de Moamba marcharam contra a cidade de Lourenço arques, a qual já se encontrava fortificada por três linhas sucessivas trincheiras.
Tendo as forças ronga conseguido ultrapassar as linhas fortificadas, os portugueses viram-se obrigados a refugiar-se na fortaleza.
A cidade foi saqueada e a fortaleza cercada, sendo a sua queda impedida pelo bombardeamento feita pelos navios de guerra surtos no porto, que obrigaram ao aumento do cerco e à retirada dos sitiantes para Marracuene.
Os assaltantes deixaram no terreno mais de uma centena de corpos.
Este ataque, embora possa ter tido o consentimento de Ngungunhane, não envolveu directamente as suas forças, nem existe prova convincente do seu apoio à decisão de afrontar o poder português.
Pelo contrário, esta afronta veio ao arrepio da tradicional táctica de confronto indirecto e de manutenção de laços formais que sempre fora mantida por Ngungunhane em relação aos portugueses.
Apesar disso, em princípios de Outubro de 1894 Ngungunhane mandou proceder à mobilização geral das suas forças, ostensivamente para cerimónias e para ver como estava o exército, o que causou alarme geral entre os portugueses e os seus aliados, contribuindo ainda mais para a instabilização da situação.
 Em retrospectiva, a mobilização deverá ter ocorrido como preparação para a ocupação do território caso o ataque a Lourenço Marques tivesse sucesso.
Em Lisboa, onde a rebelião era atribuída a Ngungunhane e a maquinações britânicas, o alarme foi grande. O governo português resolve então reagir energicamente, consolidando a visão, dominante depois do ultimato britânico de 1890, de que se impunha a pacificação pela via militar daquela região.
Para tal decide enviar como Comissário Régio para Moçambique o conselheiro António José Enes, um antigo Ministro da Marinha e Ultramar, dispondo de poderes superiores ao de Governador-Geral.
Acompanham-no um grupo de oficiais da elite aristocrática do exército, que irá fazer carreira na administração colonial.
Partidário da pacificação pela força das armas, António Enes é nomeado Comissário Régio a 9 de Outubro de 1895 e promete à rainha D. Amélia de Orleães, na audiência real que lhe foi concedida à despedida, trazer preso aos pés de Sua Majestade o famoso tirano da África do Sul.
O espírito com que embraça a missão é claro nas declarações que então faz: o Estado não deve ter o menor escrúpulo em obrigar e, se necessário for, forçar esses rudes negros da África, esses ignorantes párias, esses semi-idiotas selvagens da Oceânia a trabalhar.
Chegado a Lourenço Marques prepara o ataque aos rongas e logo em Janeiro de 1895, quando recebe as tropas que integravam a expedição comandada pelo major José Ribeiro Júnior que a 20 de Outubro de 1894 havia dei­xado Lisboa, no paquete Cazengo, da Companhia Nacional de Navegação, resolve atacar Marracuene.
Partia-se para uma situação de guerra aberta.
Estava iniciado o conflito que levaria ao fim do Império de Gaza e à queda de Ngungunhane.
 O combate de Marracuene (2 de Fevereiro de 1895)
Em finais de Janeiro de 1895 uma força portuguesa, comandada pelo major José
Ribeiro Júnior e tendo como segundo-comandante o major Alfredo Augusto Caldas Xavier, avança para Marracuene, na margem direita do rio Incomati.
Devido à doença do major José Ribeiro Júnior a força passa a ser efectivamente comandada pelo major Caldas Xavier, o qual foi o responsável quase único pela condução das operações.
Integram a expedição 37 oficiais e 800 soldados.
As forças ronga, totalizando cerca de 4 000 homens, eram comandadas pelo jovem
príncipe ronga Nuã-Matidjuana caZixaxa iMpfumo, que ficaria conhecido na
historiografia portuguesa por Zixaxa, e que seria, um ano mais tarde, um dos prisioneiros deportados para os Açores.
O chefe de Moamba já se tinha aliado aos portugueses e só Matibejana e Mahazul combatiam.
Ao aproximarem-se do local, as forças militares portugueses, que incluíam as praças indígenas de Angola e da ilha de Moçambique, entrincheiraram-se num quadrado militar e prepararam-se para o combate.
O confronto dá-se na madrugada de 2 de Fevereiro de 1895.
A força portuguesa, disposta em quadrado, vale-se do poder dos canhões e metralhadoras e consegue rechaçar os assaltos das forças ronga, que por duas vezes romperam o quadrado, com enorme bravura de ambos os lados.
No terreno ficaram mortos cerca dos 66 guerreiros vaRonga.
Segundo o relatório do combate, os ”mortos no local foram enterrados e os feridos eliminados amontoados e cremados com petróleo, deixando um cheiro nauseabundo no ar”.
Do lado português são contabilizados 24 mortos e 28 feridos.
O confronto de Marracuene é hoje por vezes referido por Guaza Muthine, expressão em idioma xiRonga que significa lugar do trespasse com a lança.
 Neste contexto muthine significa lugar e guaza pode ser traduzido por trespassar, atravessar com uma lança ou ainda azagaiar.
Dias depois, os portugueses retiram-se para Lourenço Marques, enquanto as forças ronga se reorganizam em torno de Magude, onde os régulos Nwamatibyane e Amgundjuana se refugiam, ficando sob a protecção de Ngungunhane que lhes aceita a vassalagem.
Mahazul não combateu em Marracuene, da mesma forma que recusara participar no ataque a Lourenço Marques.
 As últimas tentativas de conciliação e a ruptura (Abril a Agosto de 1895)
Entretanto desencadeiam-se as últimas tentativas diplomáticas junto de Gungunhane, que ao receber a vassalagem dos povos das Terras da Coroa se apressara a informar que qualquer ataque contra eles seria considerado como um ataque às suas forças Com o regresso a Moçambique do conselheiro José Joaquim de Almeida, em quem Ngungunhane confiava e com o qual tinha mantido um longo e complexo relacionamento diplomático, a 20 de Abril de 1895 realiza-se em Manjacaze uma última reunião entre uma delegação portuguesa e Ngungunhane.
A reunião corre mal, com o comandante militar do Limpopo, que era também o chefe da delegação, a abandonar a reunião por se considerar desrespeitado.
Apesar dos esforços de José de Almeida, os tempos eram outros com a nova inflexibilidade portuguesa, agora segura face ao acordo britânico, a já não permitir os costumados acordos.
Mesmo assim, e numa clara estratégia de ganhar tempo enquanto aguarda uma resposta britânica ao seu pedido de apoio, Ngungunhane mantém o residente português e chega mesmo a enviar uma delegação a Lourenço Marques.
 Esta delegação parte a 24 de Maio de 1895 e oferece dinheiro e marfim ao Comissário Régio António Enes, que recusa os presentes.
Fala aos emissários de forma ameaçadora e declara que o rei de Portugal está furioso.
Em resposta aos emissários de Ngungunhane, a 14 de Julho de 1895, António Enes produz um ultimato em que exigia a entrega dos dois chefes revoltosos que se haviam refugiado em Gaza. Ngungunhane recusou fazê-lo e ameaça que irá procurar protecção debaixo de outra bandeira, aludindo aos britânicos.
A 28 de Agosto de 1895 é reiterado o ultimato e são rejeitados as últimas propostas de Ngungunhane.
Este foi o pretexto oficial para o ataque que os portugueses preparavam cuidadosamente desde a chegada de António Enes a Moçambique.
Estava declarada a guerra.
 Os combates de Magul e Coolela (Setembro a Novembro de 1895)
Lisboa dá instruções claras, lembrando a António Enes que tudo o que não fosse o
aniquilamento total de Gungunhana não corresponderia aos sacrifícios
pesadíssimos que o país tinha feito.
O plano de ataque contra Ngungunhane e de penetração no interior utilizava largamente as vias fluviais dos rios Incomati, Limpopo e Inharrime. As tropas portuguesas deviam avançar em três colunas: uma ao longo do Incomati, outra pelo rio Limpopo e uma terceira descendo de Inhambane pelo rio Inharrime. O ponto de encontro destas três colunas seria na região de Manjacaze onde residia Ngungunhane. A coluna mais forte era a de Inhambane.
Entretanto, depois do combate de Marracuene, as forças ronga tinham-se reorganizado em Magul (Magude), chefiadas também por nuã-Matidjuana caZixaxa Mpfumo e seu primo Mahazul chefe dos Magaias (Madjuaias).
E foi com estas forças que se deu o primeiro confronto quando a 7 de Setembro de 1895 a coluna do Incomati, comandada por Alfredo Augusto Freire de Andrade, se encontrou com as tropas de Matibejane e de Mahazul na planície de Magul.
Em Magul estão 13 mangas (regimentos) africanas, com cerca de seis mil homens.
Os soldados portugueses, em número de 275, com cerca de 500 de auxiliares, recorrem mais uma vez à táctica do quadrado, defendido por arame farpado, com os soldados virados para as quatro frentes e com a artilharia nos ângulos.
 Nas filas da frente ficaram os soldados das forças auxiliares africanas, especialmente os angolanos.
Como sempre, os guerreiros africanos lançam-se em formação de meia lua contra as metralhadoras e peças de artilharia.
 A desproporção do poder de fogo é enorme.
As tropas de Matibejane e Mahazul cercaram o quadrado mas não conseguiram penetrar nele e depois de duas horas de combate tiveram que recuar.
São dizimados, abandonando cerca de 400 mortos, contra apenas 5 soldados brancos abatidos.
Foi uma grande derrota para Matibejane e Mahazul.
Depois de Magul os portugueses incendiaram todas as povoações circunvizinhas, espalhando o terror e intimidando todos os chefes da região, muitos dos quais vieram realmente prestar vassalagem aos portugueses.
 Ngungunhane, mais uma vez, não quis intervir em auxílio aos seus aliados rongas. Aguardava ainda uma ajuda britânica e uma conciliação que as condições políticas em Portugal já não permitiam.
Entretanto, o seu exército de cerca de 40 000 homens, que havia sido chamado no ano anterior, começava a desmobilizar, vítima da fome e da necessidade de voltar às suas aldeias para proceder às sementeiras.
Depois desta nova derrota, o imperador nguni ainda tenta negociar com o Comissário Régio e envia mais emissários a Durban e à Cidade do Cabo na esperança de obter auxílio britânico. Nada consegue.
Agora já em confronto directo com Ngungunhane e com as forças do Império de
Gaza, António Enes manda o coronel Eduardo Galhardo, à frente de 600 oficiais e soldados portugueses e 500 auxiliares africanos, tomar a capital nguni.
A coluna está equipada com 38 carros de combate e seis canhões.
Já muito enfraquecido pelo tempo e pelas suas próprias indecisões, aparentemente
ainda acreditando que a atitude portuguesa será a de sempre, não concretizando
as ameaças, Ngungunhane contava então com apenas 13 mil homens, o que não chega a um terço do que, poucos anos antes, recrutaria sem dificuldade.
O seu poder absoluto está claramente enfraquecido.
Vários régulos, entre os quais três tios do imperador, não se apresentam para a batalha.
Magigwani, o reputado comandante-chefe das mangas ngunis parte para Bilene em busca dos reforços que nunca chegarão.
O confronto acontece em Coolela, a 7 de Novembro de 1895.
 A táctica repete-se com o quadrado, o arame farpado, as metralhadoras, os canhões e a nova carabina de repetição austríaca Kropatscheck que tinha substituído a velha espingarda Steyr Mannlicher, esmagam os regimentos de Ngungunhane.
 Morrem cinco soldados brancos contra muitas centenas de guerreiros de Gaza.
Antes de encetar a fuga de Mandlakasi, Ngungunhane reúne-se com os conselheiros e acusa tios e primos de traição pela ausência na frente de combate.
 Está decidido a entregar-se aos portugueses e a solicitar clemência, mas continua
preso numa teia de indecisões que lhe não permitem uma rápida resposta à nova
situação.
Aparentemente aguardava ainda que os portugueses voltassem às antigas tergiversações.
A capital de Gaza, Manjacaze, ficava apenas a 7 km de Coolela.
 Estava aberto o caminho para a sua queda em poder dos portugueses.
 O incêndio de Manjacaze e a captura em Chaimite (Novembro e Dezembro de 1895)
A 11 de Novembro de 1895, uma coluna militar portuguesa de 700 homens, comandada pelo coronel Eduardo Augusto Rodrigues Galhardo, entra sem séria oposição em Manjacaze (ou Mandlakasi) a capital do império de Gaza e a sede formal do poder de Ngungunhane.
 Encontram o kraal abandonado com a quase totalidade da população em fuga.
Galhardo ordena a pilhagem da povoação pelas suas tropas auxiliares africanas e, depois de despojada de todos valores e devidamente inspeccionada, procede ao seu incêndio.
Dadas as características das construções, depois do incêndio pouco restou do povoado.
Ngungunhane entretanto refugiara-se em Chaimite, a aldeia sagrada onde está a campa do seu avô Manukuse, o fundador do Império de Gaza.
Ali oferece sacrifícios humanos ao avô e a outros antepassados em procura de protecção divina.
Face a esta vitória, o Comissário Régio António Enes decide a captura ou a morte
de Ngungunhane, pretendendo cumprir a promessa feita aquando da sua partida de Lisboa e pôr termo ao receio de que o régulo pudesse reorganizar os seus
exércitos e restabelecer a sua base de poder entre os povos nguni e seus aliados.
 Para tal confere plenos poderes ao major de cavalaria Joaquim Augusto Mouzinho de Albuquerque, nomeando-o, a 10 de Dezembro, governador de Gaza, território que passa entretanto a constituir um novo distrito militar da colónia.
Mantendo contactos indirectos com o tenente Álvaro José de Sousa Soares de
Andrea, comandante da lancha-canhoneira Capelo, apelidada estimela por ser a vapor (steam em inglês), que então cruzava as águas do Limpopo, Ngungunhane, pressentindo a derrota procura aplacar os portugueses.
 A 13 de Dezembro resolve entregar em Chissano, Gaza, o príncipe ronga nuãMatidjuana caZixaxa Mpfumo (Matibejana ou Zixaxa), que perseguido pelos portugueses se acolhera sob a sua protecção.
 Com esta decisão aliena parte dos seus aliados, os quais a partir daí á não se sentem seguros sob a sua protecção e se apressam a prestar vassalagem aos portugueses. Como nem esse gesto consegue pôr termo ao conflito, resolve render-se, facto que foi sabido na Capelo nas vésperas do Natal de 1895.
Mouzinho de Albuquerque, que estava então a bordo da Capelo, percebe este gesto
de desespero do Leão de Gaza, mas em vez de desistir da perseguição sente-se
encorajado pelos sinais de fraqueza do adversário.
No seu Relatório sobre a prisão do Gungunhana escreverá que" tinha-se enraizado no meu espírito a ideia que eu havia de prender ou matar o Gungunhana."
Encorajado pela crescente onda de vassalagens que vai conseguindo dos líderes
tribais da região, incluindo alguns tios de Ngungunhane, numa decisão verdadeiramente temerária, aparentemente inspirada pelo bravado a que seria atreito, algum álcool e principalmente pelo conhecimento de que Ngungunhane já tinha decidido entregar-se, Mouzinho de Albuquerque parte no dia de Natal com o objectivo de proceder à captura de Ngungunhane, apenas acompanhado por dois tenentes, um médico e 49 praças portuguesas e duas centenas de auxiliares africanos.
Nos três dias de marcha forçada que se seguem, juntam-se-lhe vários régulos que se oferecem para combater o monarca nguni.
O único apoio possível são as forças da Marinha da canhoneira fluvial Capelo, que permanece em posição no Limpopo a aguardar o desfecho.
Sabendo-se perseguido, mas não sabendo a verdadeira força da coluna que marcha em sua direcção, por duas ocasiões Ngungunhane envia emissários ao encontro de Mouzinho com presentes e juras de amizade e arrependimento para a coluna não avançar mais.
Manda-lhe entregar uma vez 560 libras de ouro e alguns dentes de marfim, noutra é o próprio filho primogénito Godide quem traz mais 510 libras de ouro e 63 búfalos.
Não se detendo, na madrugada de 28 de Dezembro de 1895, Mouzinho de Albuquerque chega frente às paliçadas de Chaimite. Perante a proximidade de Ngungunhane, os homens dos régulos dissidentes recusam-se a progredir no terreno, tal é o terror que o imperador ainda lhes provoca.
 Noutra decisão tão temerária quanto inesperada, Mouzinho de Albuquerque às 7 horas da manhã resolve entrar na aldeia por uma estreita abertura da cerca, por onde caberia apenas um homem, no que é seguido pelos soldados brancos.
A ousadia resulta em cheio: surpresos e atemorizados, os cerca de 300 guerreiros, armados de espingardas, da manga Zinhone Muchope (as Aves Brancas), o último reduto de defesa de Ngungunhane, não esboçam qualquer resistência e fogem.
 Esta fuga resultou de saberem que Ngungunhane se iria entregar, facto conhecido havia já alguns dias.
Barbárie...
 Com Ngungunhane capturado e humilhado, Mouzinho de Albuquerque ordena o fuzilamento imediato e sem julgamento do conselheiro (induna) Mahune e de Queto, um tio do imperador, os quais considera como sendo os principais instigadores da rebelião.
Não contente com o fuzilamento, ainda manda que o coração dos mortos seja trespassado por uma espada, no que usam a espada de Soares de Andrea, já
que o tenente Sanches de Miranda tinha esquecido a sua espada antes de embarcar a Capelo e quando desembarcou em Zimacaze tinha pedido emprestada a arma do comandante do navio.
 Pelas 10 h estava terminada a destruição de Chaimite e a coluna partiu de volta à Capelo trazendo os prisioneiros."
(in wikipédia)
Deportação para Lisboa e subsequente exílio na Ilha Terceira
O percurso de Gugunhana rumo à sua deportação para a metrópole iniciou-se pelas 10 horas da manhã do dia 28 de  de Dezembro de 1898 , a meio de humilhações e pontapés, tendo Ngungunhane e as sete mulheres que foram escolhidas para o acompanhar,  Namatuco, Machacha, Patihina, Xisipe, Fussi, Muzamussi e Dabondi, partido de Chaimite a pé, escoltados pelas tropas portuguesas. A comitiva integrava além das esposas do rei destronado, Godide, o príncipe herdeiro, e dois tios de Ngungunhane.
 Foi uma caminhada árdua e difícil, aquela que os levou ao desterro, sempre em marcha acelerada, durante a qual os prisioneiros sempre que caíam ou se atrasavam eram pontapeados ou vergastados pelas tropas.
Os prisioneiros chegaram no dia 29 de Dezembro a Zimcaze, nas margens do rio Limpopo, onde os aguardava a canhoeira fluvial Capelo para onde os prisioneiros foram obrigados a subir, quase de rastos, tal era o seu estado de inanição.
Segundo consta Gugunhana teria sido interrogado, pontapeado e torturado e várias vezes questionado acerca do paradeiro do enorme tesouro que se supunha que tivesse escondido.
Dali o grupo de prisioneiros foi levado até a barra do rio Limpopo, tendo o príncipe  Zixaxa sido autorizado a levar consigo três das suas mulheres, de nomes Pembane, Oxaca e Debeza.
Chegados à barra do rio Limpopo embarcariam para Lourenço Marques onde ficariam na cadeia da cidade até ao dia 13 de janeiro de 1898, dia em que embarcaram no navio a vapor Àfrica com destino a Lisboa, onde viajando em más condições só chegariam no dia 13 de Março.
Chegada a Lisboa
Recorrendo de novo ao texto da wikipédia naquele navio"também seguiam outros 31 prisioneiros, para serem deixados em Cabo Verde, entre os quais o missionário e activista negro Roberto Mashaba.
Transportando 284 passageiros e 215 militares de infantaria, o navio fez paragens na Cidade do Cabo, Luanda (onde se comprou roupa para os prisioneiros) e na ilha de Santiago de Cabo Verde para deixar os presos africanos.
Nesta última paragem é feita uma fotografia dos presos, que é enviada para Lisboa, onde chega antes do África e é publicada na imprensa.
Em todas as escalas os prisioneiros são postos a ferros, para evitar fugas."
O navio Àfrica, no qual seguiam os prisioneiros chegou finalmente à barra de casacais onde fundeou, tendo atracado no Cais do Sodré apenas no dia seguinte.
Correndo a notícia da chegada dos prisioneiros o navio é imediatamente rodeado de várias outras embarcações de recreio e de menor calado,a remos e á vela, que se acercaram do navio na esperança e curiosidade de verem os prisioneiros.
A cidade de lisboa alvoroçava-se festivamente no afã de ver o "famoso troféu de guerra" que constituíam aqueles prisioneiros africanos.
Tal como muitos dos jornais da época referenciavam: era a chegada "da fera cruel, do pesadelo de todos os governos portugueses, do régulo sanguinário".
Depois de horas de insistências, alguns jornalistas conseguem permissão de subir  bordo.
Encontram o grupo de 16 prisioneiros a estibordo, num exíguo espaço mal
iluminado com dois patamares de beliches.
 "Nas esteiras superiores está Ngungunhane com sete das suas mulheres. No beliche inferior amontoam-se Godide, filho primogénito de Ngungunhane, o príncipe Zixaxa Matibejane e as suas três mulheres, Molungo, tio de Ngungunhane, e Gó, o cozinheiro do imperador.
Aos jornalistas impressiona o cheiro nauseabundo que dois meses de clausura tinham permitido desenvolver." (wikipedia)
Tal como o jornal Diário de Notícias noticiava na sua edição de há precisamente 100 anos:
" Quando entramos nos alojamentos estavam todos os pretos deitados e o Gungunhana, que ocupava uma extremidade da tarimba, tinha o rosto coberto. Alguém lhe descobriu a cara e o preto despertou, olhando para todos com olhos desconfiados. Pouco depois, como os jornalistas e outras pessoas admitidas a bordo eram cada vez em maior número e o espaço faltasse, foi ordenado que subisse a pretalhada para a tolda, onde se faria a sua exibição.
Ngungunhane está exausto e horrorizado. Desde a captura em Chaimite que receia o fuzilamento.
Chora, implora, treme, esconde o rosto com as mãos, oferece tudo o que já não tem para obter a libertação, dinheiro, gado, ouro, marfim, escravos, terras.
 Aos que o rodeiam pergunta sem cessar: Digam-me o que querem de mim. Vou morrer? Para que lhes sirvo eu? Deixem-me regressar que morro se não vejo as
minhas terras!, traduz o intérprete."

Às três e meia daquele dia os prisioneiros desembarcaram no arsenal e são motivo da admiração e espanto populares.
O ar altivo , as roupas coloridas,os enfeites das mulheres, tudo era causa de curiosidade e admiração geral da população.
"Quase todas altas e mais cor de castanha que pretas (…) carapinha bem penteada (…) feições finas, bonitas mesmo..." admirava-se a imprensa.
"No interior do Arsenal, Godide torna-se objecto de curiosidade particularmente das esposas dos funcionários.
É jovem, alto, fala português, não está assustado como o pai. Quando consta que sabe assinar o nome, as damas assediam-no para obter o autógrafo do bem disposto prisioneiro.
Ao fim da tarde o grupo é metido em seis carruagens abertas, escoltadas por 30
praças de cavalaria, com destino ao Forte de Monsanto.
 Nas três primeiras iam as 10 mulheres, na quarta o cozinheiro Gó, a quinta levava as bagagens, as quais se resumiam a algumas trouxas e às esteiras onde habitualmente dormiam.
 A carruagem com os quatros prisioneiros mais importantes (Ngungunhane, Godide, Matibejane e Molungo) fechava o cortejo.
Nas ruas da baixa lisboeta por onde passam, e no longo percurso até Monsanto, foi tal afluência de povo que, nalguns locais, o cortejo dificilmente avançava.
Os ditos e as humilhações que os prisioneiros sofreram foram de tal monta que nos dias seguintes a imprensa protestou pela passividade da polícia."(wikipédia)
Os prisioneiros estiveram algum tempo no forte de Monsanto de onde foram instalados em condições de precariedade nas casamatas da guarnição.
Entretanto continuava-se a assistir, e vivia-se a um ambiente de comercial festejo e frenesim chegando-se ao ponto de se instalarem tendas e barracas de venda de comidas e bebidas nas imediações do forte, vendendo-se postais alusivos a Gugunhana, tendo segundo fontes da época chegado mesmo a abrir uma casa de petiscos no Areeiro que se chamava Gugunhana.
Foi de facto enorme naquela época a exploração comercial da imagem dos prisioneiros e da figura do régulo Nguni.
Ante a insustentabilidade da crítica e da censura dos média da época à forma como o governo estava atratar os prisioneiros e diante do constante arraial popular das massas que continuamente afluíam ao forte, situação que acarretava também ela dificuldades de policiamento e um maior controle das entradas no forte o governo via-se cada vez mais pressionado a encontrar uma solução que trouxesse de volta a tranquilidade social.
Deste modo, no dia 22 de Junho daquele ano o governo tomou a decisão de enviar os prisioneiros para fora de Lisboa, desterrando-os para a Ilha Terceira nos Açores.
Este "desterro" implicou contudo a separação dos prisioneiros das suas esposas, pois a moral da sociedade portuguesa da época profundamente católica era completamente aversa às uniões poligámicas já que a poligamia era vista como um grave insulto aos valores morais da nação e um insanável escândalo para as famílias portuguesas.
Isto muito apesar de alguma da impreesa mais liberal er condenado o governo por permitir e forçar o afastamento dos prisioneiros das suas esposas, classificando-o de um acto de crueldade.
O destino das mulheres dos prisioneiros
As mulheres dos prisioneiros trazidos cativos para Lisboa (que muito naturalmente ficaram inconsoláveis ante a percepção do afastamento definitivo imposto dos seus maridos) assim como o cozinheiro Gó foram deportadas ao que se julga saber para São-Tomé, onde a maioria delas morreu na miséria. Algumas no entanto ainda conseguiram regressar a Moçambique.
Ida para os Açores
A transladação dos prisioneiros para os Açores fez-se no maior secretismo para prevenir eventuais aglomerações populares tais como aquelas que haviam ocorrido aquando da chegada dos prisioneiros a Lisboa, alguns meses antes.
A vida nos Açores
Após o desembarque dos prisioneiros em Angra do Heroismo , a chegada dos prisioneiros ao arquipélago tal como sucedera no continente foi igualmente alvo de curiosidade.
O jornal A União do dia imediato descreve o desembarque:"O aspecto do Gungunhana e do Molungo era de profundo abatimento. Ainda assim, no cais, o ex-rei de Gaza teve um soberbo e altivo olhar para a multidão que se apinhava à sua passagem.  O grande e temível Gungunhana, caminhando na frente dos seus companheiros de infortúnio, descalço, com a fralda de fora, uma trouxa ao ombro, escorrendo em suor, feito um maltrapilhos, comoveu-nos profundamente.  Em pequenas trouxas traziam quanto lhes pertencia.
Os seus trajes eram ordinaríssimos e mal se compreende a economia do Governo não lhes dando vestimentas decentes."
O tom da imprensa  Açoriana continuou o mesmo, com A União de 30 de junho a informar que os prisioneiros que "há dois dias pisaram a nossa formosa terra, que hoje lhe é terra de exílio, tem jus ao nosso respeito".
O mesmo tratamento e atitudes humanizantes para com os prisioneiros aconteceu  na Fortaleza de São João Baptista, onde as ordens foram terminantes: os prisioneiros deviam ser tratados com todo o respeito, dando-se-lhe por homenagem entre as 8 da manhã e o sol-posto o recinto do Castelo.
Com o passar do tempo o tratamento mais restritivo deu lugar a uma maior liberdade e os prisioneiros foram-se integrando na sociedade local.
De acordo com o artigo sobre Gugunhana, que endosso como completo e de onde cito novamente:
"Ngungunhane retirava-se para o Monte Brasil, onde caçava coelhos, passando a confeccionar pequenos cestos de palha, que vendia aos visitantes.
Recebiam um pequeno pré diário de 60 réis e "rancho dos oficiais inferiores", sendo equiparados a "2.º sargentos adidos a Caçadores n.º 10", podendo circular com crescente liberdade.
O maior pesar era a ausência das esposas, tendo o governador intercedido, sem sucesso, para que, pelo menos uma, fosse autorizada a vir para a ilha.
 A moral portuguesa a época não se compadecia com a poligamia e a solução oficial foi conduzir, todas as semanas, os prisioneiros a um bordel da cidade."
Com o passar do tempo, a aculturação começou a fazer-se sentir: as roupas passaram a ser as locais, a coroa de cera deu lugar a chapéus requintados e o uso de botas substituiu os pés descalços.
penas Molungo manteve os seus hábitos.
Godide e Zixaxa aprenderam rapidamente a ler e escrever, no que foram seguidos
por Ngungunhane.
 Com boa caligrafia, alguns dos seus escritos sobreviveram até aos nossos dias. Também a cristianização, que fora iniciada pelo médico Georges Liengme, um missionário evangélico suíço que vivera quatro anos em Manjacaze, foi prosseguida nos Açores.
 A 16 de abril de 1899, os prisioneiros foram baptizados na Sé Catedral pelo bispo de Angra, D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito, e logo de seguida crismados, recebendo como padrinhos os principais notáveis da ilha.
Os nomes de baptismo adotados foram Reinaldo Frederico Gungunhana, António da Silva Pratas Godide, Roberto Frederico Zichacha (de que foi padrinho de batismo José Pimentel Homem de Noronha) e Silva e José Frederico Molungo (de que foi padrinho de batismo Francisco de Paula de Barcelos Machado de Bettencourt).
A partir daí foi rápida a integração social, com os prisioneiros a serem considerados como pessoas de bem, sendo bem acolhidos e recebidos na cidade.
Zixaxa e Godide, considerados belos e alegres rapazes, participavam em actividades sociais.
Ngungunhane embriagava-se frequentemente, tendo sido por várias vezes detido por desacatos praticados em tal estado.
Apenas Molungo (cujo nome significa senhor) se retraiu e evitou falar português. Zixaxa casou e teve um filho, também chamado Roberto Zixaxa, fundando uma família que ainda está presente na sociedade angrense.
Morte do Leão de Gaza
Ngungunhane faleceu a 23 de dezembro de 1906, vítima de hemorragia cerebral no Hospital Militar da Boa Nova, em Angra do Heroísmo, "baptizado, alfabetizado e lcoólico", como dele escreveria o historiador René Pélissier.
Terá vivido cerca de 56 anos. Foi enterrado no cemitério da Conceição, numa das campas destinadas à sepultura da população católica local.
Os restantes prisioneiros faleceram também na ilha: Godide, aos 35 anos, em 1911, vítima de tuberculose; Molungo, para cima dos 80 anos de idade, em 1912; e finalmente, Zixaxa, feito guarda do Monte Brasil, em 1927, então já com família local.(wikipédia)
A última viagem de Gugunhana: 100 anos depois
No entanto o último capitúlo da história de Gugunhana escrever-se-ia 100 anos depois decorridos após a sua morte quando o então Presidente Moçambicano Samora Machel, visitou portugal em 1985.
Foi então acordada com o seu hómologo português a transladação dos restos mortais de Angra do Heroísmo para Moçambique, tendo as ossadas sido "simbólicamente" entregues ao Governo Moçambicano tendo a urna sido transportada para Moçambique.
"Foi assim que a 15 de Junho de 1985, em cerimónia solene devida a um herói nacional, a urna de madeira de Ngungunhane, pesando 225 kg e esculpida pelo artista moçambicano Paulo Come sob a coordenação de Malangatana Valente, fica exposta, de início, no Salão Nobre do Conselho Executivo da capital e, mais tarde, dá entrada na Fortaleza de Maputo.
Tem como companhia os baixos relevos com que o poder colonial glorificou as campanhas de pacificação de Gaza e as enormes estátuas de Joaquim Mouzinho de Albuquerque e de António Enes, que Moçambique guarda como relíquias históricas do tempo colonial."(Wikipédia)
Considerações finais
A título pessoal não deixo de salientar e de considerar  como importantes alguns aspectos da história da vida deste homem, Gugunhana.
 Importa sublinhar ao analisar este artigo da wikipédia ao qual manifesto o meu mais profundo apreço, o caracter (ainda que de alguma forma se notassem algumas ambivalencias) da sociedade portuguesa da época que começava a despontar para o humanismo e para a aceitação da diferença integrando-a numa pespectiva humana.
É de realçar  o papel dos média na época, censurando e delatando até situações e formas de tratamento desumanas e no sentido de procurar  conscializar a opinião pública incentivando-a ao respeito pela vida e dignidade da pessoa humana, naquele caso da pessoa daqueles prisioneiros.
Nesta história real cabe também destacar a atitude da sociedade açoriana da época patente no cabeçalho do Jornal A União:
"há dois dias pisaram a nossa formosa terra, que hoje lhe é terra de exílio, tem jus ao nosso respeito"
Uma atitude que hoje transcorridos 112 anos nos deverá servir de um exemplo maduro e forte de convivência e de aceitação das diferenças sejam elas étnicas, culturais ou de consciência.

9 comentários:

Anónimo disse...

Embora com apoio no wikipédia, é um excelente trabalho.
Parabéns.

SERGIODAUDE disse...

-Obrigado....Há pouca informação sobre esta parte da nossa história..portuguesa e moçambicana....e é uma parte interessante da história...

Anónimo disse...

Zichacha seria supostamente o herdeiro do trono(por ser sobrinho de Gongunhana-conforme as socidades matriarcais) ou a pessoa com direitos, nunca devidamente reconhecidos pelos governantes portugueses, mesmo depois do antigo regime nunca foi devidamente reconhecida. Por volta da década de 1990 é feita homengem a mousinho de albuquer e a gongunhana (?). A homenagem a vencedor e vencido sem que nunca tenha havido um verdadeiro reconhecimento de quem deveria ter recebido o exilio ou o tratamento real

m ramos disse...

O documento é deveras importante pois está deveras completo. Aproveito para pedir uma informação que seria muito importante que é o seguinte: Será possível confirmar se o Sr. José Teixeira Paulo meu avõ, fez parte do regimento de Mouzinho de Albuquerque na captura do pobre Gugunhana? muito obrigada

Bianca Zixaxa disse...

Adorei com mt orgulho qe sou Zixaxa

Anónimo disse...

Muito obrigado por compartilhar este artigo
Gostaria de chamar a atencao que o Gungunhana chegou a Lisboa no 13 de Marco de 1896 e nao no 15 de Marco de 1898

Anónimo disse...

Muito interessante. O meu avo era rei, familia Chipwazo e Mbuiazico de Caia em provincia de Sofala em Mocambique. Meu pai conta que a minha avo era a 5a esposa real. Nao conheci o meu avo mas pude pisar as terras dele. Meu mail nelly_pereira2003@yahoo.com.br meu facebook Manuela Fernandes Pereira

Ilidio Arrone disse...

Acho, ou seja encontrei a fonte certa para o estudo completo da vida de Ngungunhana o Imperador de Gaza

Daniel De Lucca Reis Costa disse...

Só não entendi a primeira foto acima. Aquele não é Ngungunhane, mas Dom Boaventura p último régulo timorense a se rebelar contra os portugueses. Há relações entre ambos, mas o texto não as explicita.

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